sexta-feira, dezembro, 2015

Fábio Moon & Gabriel Bá: a saga de dois irmãos

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O Fábio e eu somos de uma geração de artistas que aprendeu a fazer tudo à mão e valoriza todas as etapas do processo, mas convivemos bem com a tecnologia, acompanhamos toda revolução digital e a incorporamos no nosso trabalho desde o início de nossa carreira.

Quando começamos a fazer Quadrinhos, no meio da década de 90, o mercado nacional era um deserto árido, sem esperanças ou horizonte. Em decorrência da crise econômica do início da década, muitas editoras fecharam as portas e as remanescentes não publicavam mais material nacional. Os autores que nos influenciaram com seus trabalhos na década anterior estavam publicando somente tiras de jornal, e nas bancas só se encontrava produções de massa – gibis de super-heróis, Mônica e os mangás que começavam a despontar (pensando bem, nesse sentido a situação nas bancas não mudou muito). A saída para os Quadrinhos autorais era com publicações independentes, fanzines fotocopiados, dobrados e grampeados à mão. Um fanzine feito “em xerox” pode parecer simples e tacanho, amador e precário, mas o seu conteúdo pode falar mais alto que sua aparência. Sempre nos preocupamos com as histórias que contamos mais do que com o acabamento das publicações. Uma boa história sobrevive num fanzine feio, mas uma revista de luxo não se salva com uma história ruim. Nossos amigos da faculdade que compravam o fanzine não viam aquilo como duas páginas dobradas. Enxergavam uma revista e liam nossas histórias. Foi a primeira vez que percebemos o poder da história e que o importante era atingir as pessoas.

Naquela época, o estilo de histórias que queríamos contar – crônicas do cotidiano, histórias de relacionamento – não existia muito nos Quadrinhos nacionais, dominados pelo humor para adultos e crianças, então não tínhamos exemplos pra apontar pros amigos. Por isso criamos o fanzine 10 Pãezinhos. Contávamos histórias curtas de uma, duas, até quatro páginas, e lançávamos um fanzine novo toda semana. Nós crescemos com o costume de comprar dez pãezinhos todas as manhãs para o café, e conseguimos criar nos nossos amigos que não liam Quadrinhos o hábito de ler uma história nova toda semana.

10paezinhos

Quando nos formamos na faculdade e começamos a trabalhar com ilustração, perdemos o contato físico com as pessoas, pois passávamos o dia inteiro no estúdio, sem convívio social algum. É a realidade do trabalho do Quadrinista, solitário, isolado. Dessa forma, os fanzines começaram a acumular, não conseguíamos mais vender parcas 100 cópias todas as semanas. Esse canal de comunicação com o público era o motor do fanzine e, uma vez que não encontrávamos mais este público, ele perdeu força e função. Decidimos começar a produzir histórias para participar de antologias e, eventualmente, publicar uma antologia só com histórias nossas, mas isso nos mantinha trancafiados no calabouço da produção, longe dos olhos do público, invisíveis. Desaparecer por um ano, naquela época, era morrer e renascer no ano seguinte, como se estivesse começando de novo. Um ciclo que parecia se repetir a cada ano. Foi nessa época que criamos nosso blog.

Em 2001, começaram a surgir os primeiros blogs e nós percebemos que seria um ótimo canal de diálogo com o público, uma maneira de não desaparecer por completo enquanto produzíamos novas histórias. O blog não surgiu para substituir o fanzine, pois não publicávamos HQs nele. A internet ainda era lenta e as imagens eram muito pesadas ou de baixa qualidade, então colocávamos textos no blog, reflexões sobre o universo das Histórias em Quadrinhos. Os bastidores, os processos de produção, as etapas, os dilemas. Queríamos aproximar a nossa profissão do público que ainda conhecia muito pouco sobre o assunto. Não havia exemplos suficientes nas bancas pra explicar o que acreditávamos que os Quadrinhos eram capazes de fazer, pra desmistificar a ideia de que HQ era somente coisa de criança, provar que é uma linguagem séria capaz de contar qualquer tipo de história. Enquanto não tínhamos outras publicações pra mostrar, nosso blog foi o veículo para discutir essas ideias. Garrafas jogadas ao mar, palavras ao vento.

Muitos outros Quadrinistas tiveram blogs, numa época onde os blogs eram o canal de comunicação mais prático e eficiente pra mostrar o trabalho e atingir o público. Aos poucos, outros canais foram surgindo e nós abraçamos quase todos eles, na vontade desesperada de manter a comunicação com os leitores, de não desaparecer. O nosso trabalho não estava na internet, estava nas livrarias, mas todo mundo estava mergulhando na internet. Sempre acreditamos no nosso trabalho, mas era importante manter vivo o diálogo com o público e alimentar a curiosidade dos leitores durante os longos períodos de produção das histórias. Durante anos, o blog foi a porta de entrada de muitos para o nosso trabalho, mesmo que as HQs não estivessem lá.

Hoje, o Twitter e o Facebook viraram nossos canais mais ativos de comunicação, mais ágeis, com atualizações diárias. O blog acabou relegado quase a uma agenda dos nossos eventos. Também é o lugar onde colocamos a nossa tira “Quase Nada”, publicada aos sábados na Folha de São Paulo, e essa atualização constante continua formando novos leitores. A vontade de falar sobre Quadrinhos ainda pulsa forte no nosso peito e, quando sobra tempo, escrevemos textos mais profundos ou relatos mais apaixonados sobre algo que acreditamos valer aquele esforço extra.

– Gabriel Bá

gabriel-ba-fabio-moon-ok

2 thoughts on “Fábio Moon & Gabriel Bá: a saga de dois irmãos

  1. É sempre interessante ultrapassar as pagínas de um quadrinho ou de uma arte a qual se admira, sempre imaginando o que se passava na cabeça do artista na hora em que ele registrou aquele traço no papel ou na tela. Sempre fico imaginando isso e adoro ler sobre bastidores da vida das pessoas que fazem trabalhos que gosto tanto, de onde vieram até aparecerem em nossas vidas, suas tragétorias. Bá e Moon surgiram a alguns poucos anos para mim, um garoto de 18 anos que foi inspirado por esses dois grandes artistas a também se arriscar pela paixão dos desenhos e dos quadrinhos. Estou sempre pensando se um dia conseguirei atingir o sucesso que ambos fizeram. Bom, isso ainda ninguém sabe, mas com certeza irei me esforçar muito e não desistirei assim como sei que fizeram. É inspirador quando quadrinistas abrem esse tipo de dialogo com o publico, um dos elementos que demonstra para mim que realmente são grandes ARTISTAS.

  2. Aqui está mais uma prova que o verdadeiro talento e vontade de chegar lá sobrevive a qualquer dificuldade. Num país onde leitura e coonhecimento parece ser coisa de extraterrestre, ganhar a vida e vingar com idéias e conteúdo não é fácil. Vocês são a prova que tudo pode dar certo com trabalho e dedicação. Parabéns!!!

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