Na Mídia

Entrevista – Traços genuinamente universais

Por Carina Matuda e Renata Vomero | Fotos Rodrigo Takeshi

Quando se conversa com Fábio Moon e Gabriel Bá, uma coisa é certa: será um bate-papo sobre criatividade, muita criatividade. As cabeças que adaptaram clássicos da literatura em nosso país – destaques para O alienista, de Machado de Assis, e Dois irmãos, de Milton Hatoum – e conquistaram o mercado norte-americano com Daytripper, representam o Brasil mundo afora com um talento avassalador. Na entrevista a seguir, eles falam, entre outras coisas, sobre o mercado de quadrinhos e os desafios de seguir na estrada.

Qual é a visão de vocês sobre o mercado de quadrinhos atual no Brasil?
Gabriel: A quantidade de artistas produzindo hoje é incrível. A variedade, também. Acho que, hoje em dia, cada autor entra nos quadrinhos inspirado por uma referência diferente e isso faz com que a produção seja incrivelmente plural. Acho muito positivo.
Fábio: O crescimento dos festivais e convenções de quadrinhos resultou num aumento da produção independente. Mais da metade dos autores produzindo hoje fazem revistas independentes, pois eles encontram nos eventos uma porta direta de acesso aos leitores, que da mesma forma descobrem autores que não chegam às bancas e livrarias.

Em todos esses anos de carreira, como é assistir a este grande crescimento pelo interesse e procura de quadrinhos?
Fábio: É muito bom. Estamos esperando um momento assim no mercado nacional faz tempo, e agora é fazer de tudo para que esse movimento continue crescendo. Para isso, não basta apenas assistir, tem que participar. Os autores são peças fundamentais desse crescimento, e é na troca entre autores e no contato com o público que aprendemos, melhoramos e buscamos fazer ainda mais.

Como se dá o processo criativo de vocês?
Gabriel: Não existe fórmula, cada trabalho foi desenvolvido de uma maneira diferente e continuamos mudando o processo, colocando ou tirando etapas. Nossos roteiros, por exemplo, começaram como peças de teatro, somente com diálogos, e hoje são feitos em forma de layouts (também chamados thumbnails), que são rascunhos num formato menor da página, para pensar o texto e as imagens ao mesmo tempo.
Fábio: Esse processo, inclusive, está migrando para a produção digital. Começamos a usar duas Cintiqs, mesas digitalizadoras da Wacom para agilizar essa produção, para poder utilizar o layout na hora da produção da página de uma maneira mais fluida, e também para aumentar nossa produtividade enquanto estamos viajando. O roteiro e esse layout são o nosso processo mais colaborativo. Depois dele, nossa produção se separa, o Bá desenha as páginas dele, eu desenho as minhas, e raramente desenhamos a mesma história (a história precisa de um motivo narrativo para ter dois estilos diferentes, senão achamos que distrai o leitor). Depois de desenhadas as páginas, elas voltam para o computador, onde colorimos quase toda a nossa produção atual. Em alguns casos raros, colorimos alguma coisa com aquarela.

Em 2012, em uma entrevista para a Revista da Cultura, vocês disseram que não tinham interesse em produzir super-heróis, mesmo com a Marvel e a DC dando liberdade total para vocês. E hoje, continuam sem interesse neste nicho? Por quê?
Fábio: Existem tantos tipos de histórias diferentes, além dos super-heróis, tanto para experimentar, para tentar ampliar a linguagem dos quadrinhos, que fazer super-heróis parece fazer mais do mesmo. Tem muita gente apaixonada por trabalhar com os super-heróis e o melhor é seguir a sua paixão. Nossa paixão pelos super-heróis acabou nos levando para tipos de histórias e personagens que não precisam mais da Marvel e da DC. O mundo dos quadrinhos é maior.

Qual é a importância de retratarem o Brasil para os brasileiros?
Gabriel: Acho que o mais importante é mostrar que é possível contar uma boa história que se passa no Brasil, sem cair nos chavões e na mesmice de sempre, sem fazer propaganda turística. O Brasil é um país enorme, muito diverso, que permite contar histórias em vários gêneros.
Fábio: Todas nossas histórias têm várias camadas de leitura e os leitores brasileiros sempre terão uma vantagem a mais em relação aos estrangeiros.

Vocês são uma influência para muitos quadrinistas que estão começando hoje. De que maneira procuram apoiar os trabalhos desse pessoal novo?
Fábio: Tentamos levar o trabalho deles com a mesma seriedade que levamos o nosso, seja para ver o lado positivo, seja na hora de fazer críticas. Não saímos por aí dando pitaco no trabalho dos outros, mas existe todo um conhecimento adquirido nesses 20 anos de estrada que podemos compartilhar e que não tinha onde perguntar ou de onde aprender quando estávamos começando.
Gabriel: Só que temos que pegar mais leve com quem está começando. Não é todo mundo que aguenta essa sinceridade brutal que eu e o Fábio temos um em relação ao trabalho do outro; as pessoas levam para o lado pessoal, e para a gente, o trabalho sempre veio antes do lado pessoal.

Quais foram as influências do trabalho de vocês?
Fábio: Foram, e ainda são, as mais variadas. Os mundos em que os leitores mergulham e se reconhecem vêm do cinema e de histórias do Laerte, os personagens que você se identifica vem dos livros, do Jorge Amado, do Will Eisner, do Calvin do Bill Watterson. E existe uma fantasia, um romance e uma nostalgia em relação aos relacionamentos que vêm da música, de Beatles a Chico Buarque, até algo recente, como a Adele. E vem de Machado de Assis, de Saramago, de Borges e de Garcia Márquez. Mas tem algo das histórias do Sherlock Holmes, muita influência dos super-heróis que lemos quando éramos jovens, e dos autores clássicos que influenciaram a nossa geração, de escritores como o Alan Moore e o Neil Gaiman a artistas como o Mike Mignola e o Frank Miller.

Como é para vocês fazer adaptações de grandes clássicos da literatura brasileira?
Gabriel: O que sempre nos motivou foi contar boas histórias. Adaptar um clássico da literatura nos dá a oportunidade de trabalhar com uma grande história e, ao mesmo tempo, explorar todas as ferramentas que a linguagem dos quadrinhos nos oferece. Podemos apresentar essa história para um público novo, ou apresentar uma nova linguagem para o público daquele autor que já conhece a obra.

Vocês têm vontade de adaptar para o cinema ou TV alguma HQ de vocês?
Fábio: Acho mais importante a vontade vir de quem faz cinema ou TV. Eles é que precisam dominar essa linguagem diferente e apresentar uma visão de como ficaria uma adaptação de algum trabalho nosso. Acho que uma das nossas primeiras histórias, o Meu coração, não sei por quê., é incrivelmente visual e tem potencial para outras mídias. Acho que daria um ótimo filme.

Qual trabalho desenvolvido por vocês traz mais orgulho?
Gabriel: Gostamos de todos, mas com certeza temos uma relação diferente com o Daytripper. É o nosso livro que fez mais sucesso, o que foi traduzido para mais línguas e aquele que as pessoas mais vêm nos contar que gostaram. Acho que colocamos nele tudo o que achamos que pode ser feito em quadrinhos, em termos de complexidade da história, desenvolvimento dos personagens, temática e camadas de leitura. Fizemos isso com o novo livro também, o Dois irmãos, mas ele acabou de sair, ainda não tivemos nem tempo de entender direito o que aprendemos com ele e o que fomos capazes de realizar.

Existe algum universo ou personagem que vocês não fizeram, mas têm muita vontade de explorar?
Gabriel: Temos vontade de fazer uma história de fantasia ainda.
Fábio: Criar algo para as crianças é um desafio que um dia vamos enfrentar.

Matéria publicana na LIVRARIA CULTURA

http://www.livrariacultura.com.br/hotsites/2015/comic-con/entrevistas/fabio-moon-gabriel-ba

 

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