Na Mídia

Entre o céu e o inferno com Alberto Montt

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Enquanto conversamos sobre religião, Quino e língua espanhola, os olhos do quadrinista Alberto Montt buscam os traços nos meus braços, na capa do caderno de anotações e nos adesivos que seguro na mão. Para o chileno, a ilustração não é apenas o seu caminho para conversar com o mundo, mas também uma forma de encontrar respostas para perguntas como: Existe céu ou inferno? Quem tem mais seguidores, Deus ou o diabo? E se Jesus lesse Nietzsche? 

A obsessão pelo principal tema de suas tiras no blog Dosis Diarias, conteúdo que já deu origem a duas compilações em livro, vem do seu contato com a cultura latina. “Eu não tenho religião nenhuma, sou ateu. Mas ao mesmo tempo, crescendo no Equador, nós vivemos a cultura católica de forma intensa desde cedo, então acho que veio daí meu interesse”, explica. Desenhar Deus lhe desperta alguma egotrip de Criador? “Não, não sinto nenhum poder fazendo isso”, comenta entre risos, ainda que suas tiras mostrem uma necessidade constante de se colocar no lugar do Divino.alberto-montt5

O sarcasmo é sua válvula de escape para lidar com adversidades e com caneta e papel, transforma situações cotidianas em pirações filosóficas com bom humor. O desenho em si, segundo ele, não é seu forte. “Não sou um bom desenhista. O que não consigo desenhar, resolvo de alguma forma determinada. Meu desenho é resultado das minhas incapacidades. Não sei até hoje desenhar pés, então boa parte dos meus desenhos está cortado pela metade.”

Para ele, o processo criativo não envolve apenas inspiração, mas racionalização. “Nós como seres humanos, tendemos a fazer as coisas em sequência e não nos atentamos no motivo de estarmos ali. Quando você trabalha com música, já tem isso mais claro. Mas quando decide por desenho, nem sempre o caminho é tão simples”, explica. “Como usar sua memória para contribuir com o que você está fazendo e usar isso para perceber porque você faz algo desta forma? É um convite a ser consciente de seus processos, de entender e documentar.”

“Nós, como seres humanos, tendemos a fazer as coisas em sequência e não nos atentamos ao motivo de estarmos ali”

Manipulador_20121210102525Para ilustrar a cena, conta sobre sua amiga quadrinista, a argentina Maria Lúcia. “Minha amiga tinha um vício estranho em fotografar ornamentos. Ela viajava e fotografava edifícios com ornamentos, usava vestidos com ornamentos. Não sabia de onde vinha essa obsessão. Até que um dia a mãe foi trabalhar e ela foi visitar a casa da avó russa, onde redescobriu um diário da avó, que registrava apenas ornamentos russos. Toda a forma dela de ver o mundo veio deste livro, que ela viu na infância e não lembrava.”

Questiono sobre seu próprio caminho de descoberta. “Quino foi a ‘patada’ inicial. Quando descobri Quino, descobri que a ideia visual entra muito mais fácil na cabeça das pessoas. Primeiramente, quando você me diz algo, passa pelos meus filtros e experiências pessoais. Chega aqui, eu interpreto, às vezes correta ou incorretamente. Com imagem, é mais fácil. Penso isso com Emojis. Você coloca um Emoji e entende todas as ideias. Na semana passada, pela primeira vez na história do New York Times, eles usaram esse recurso e eu achei incrível. Também me inspiro muito por revistas da minha infância, pessoas e conversas nas ruas.”

O quadrinista já ganhou um prêmio FIQ no Brasil, mas não fazia ideia, e é a principal referência da tira Um Sábado Qualquer, do Carlos Ruas, que inclusive já falou sobre a referência neste post. Fã de Chico Buarque, amigo de Adão Iturrusgarai, Renato Guedes e Fábio Zimbres, peço que ele me indique algumas quadrinistas latinas. E ele me lista essas abaixo:alberto-montt3

Power Paola: “ela é metade colombiana, metade italiana, faz um quadrinho mais documental”
Sol Dias: “chilena, tem um humor muito parecido com o meu”
Cathalyna Bustos: “uma das minhas favoritas, tem uma personagem que não sabe se é mulher ou homem e mostra sua relação com a vida, com Netflix e as pequenas derrotas cotidianas.”

E se sua filha quiser ser quadrinista? “Minha filha? Não, isso é terrível!”, gargalha. “Que ela vá fazer algo mais útil da vida, que vá ser taxista, qualquer coisa que funcione.”

Antes de ir embora, peço para ele mostrar seus sketchbooks. Uma ‘libreta de viages’, que acabara de estrear com sua vinda à São Paulo para a Pixel Show, onde a Wacom facilitou esta entrevista. E o outro, como não poderia deixar de ser, é um livro onde pede para desenhistas que encontra registrarem suas versões para o diabo.

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Matéria publicada no BLOG MALAGUETAS 

http://malaguetas.blog.br/alberto-montt-quadrinhos/

 

 

 

 

 

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