segunda-feira, outubro, 2015

Das zines à Marvel: um papo com Mike Deodato

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Mike Deodato, um dos ilustradores mais importantes do país, representa internacionalmente os quadrinhos brasileiros e teve um importante papel na abertura do mercado americano para artistas locais, principalmente através da Marvel. Segundo ele, seu pai foi sua maior influência. “Meu pai fez a primeira revista em quadrinho do Nordeste, em 1963. Ele vivia desenhando e comprava muitos gibis em sebos, me incentivando a viver de quadrinhos. Era a forma de ele viver o seu sonho através de mim”. Na época, na Paraíba, seu pai escrevia novelas, produzia programas de rádio, dirigia e interpretava. Trabalharam juntos por dez anos, fazendo pequenas editoras pelo Brasil. “Cada história que a gente fazia juntos, ele me dava uma aula. Ele me entregava os roteiros já em storyboard, então, além de receber ótimas historias, eu tinha uma aula de narrativa. Quando jovem, eu exagerava e me concentrava só em ser bonito e esquecia da narrativa. Meu pai me mostrava o trabalho de Will Eisner, que conseguia em poucas páginas te fazer emocionar, misturava elementos gráficos, mudanças de câmera inovadoras. Eu tive a sorte de ter um pai que gostava e conhecia os mestres e pude absorver isso dele”.

Depois dos zines da época da adolescência, Mike realizou seu primeiro trabalho profissional para o governo do estado sobre a história da Paraíba. Eram os anos 80, e poucos conseguiam sustentar-se somente com os quadrinhos. Para ele, a chance só apareceu quando foi publicado internacionalmente em 1991. “Naquele ano, eu já tinha um certo nome no Brasil. Topei e desde então não parei mais. Achei que logo iam me largar, mas continuaram vindo. Até hoje trabalho em casa, com quadrinhos, e sou feliz com isso. Eu sei que ilustração, desenho animado, fazer storyboard dão mais dinheiro, mas quadrinho está no meu sangue”.

Quadrinista autoral durante o dia, Deodato desenha os personagens da Marvel, que acompanha desde a infância. Por outro lado, o quadrinho autoral é um sonho de adulto, explica ele: “A sensação de fazer uma coisa sua é indescritível. Agora eu entendo porque os ilustradores que têm quadrinhos autorais atrasam tanto os roteiros da Marvel. É porque é muito mais divertido fazer o seu próprio”. Um deles, chamado de 3 mil anos depois, é um álbum de 1994 criado por Mike e seu pai, e representa uma época em que se tinha muito pouco material. “A gente usava colagens para não gastar tinta, tinha uma mesa de luz improvisada e artesanal. Agora, estão republicando esse álbum com histórias dos bastidores”.

O mais recente, Quadros, é um álbum sem cópia física, 100% digital. “Percebi que não existe um momento ideal em que eu possa parar com a Marvel e ter dinheiro para fazer o meu próprio. Decidi fazer quadrinhos e postar em um tumblr. A Editora Mino resolveu publicar. É diferente porque tenho que me forçar a mostrar eu mesmo nas histórias, mesmo tímido. Mostrar o que eu penso sem medo”.

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Processo criativo 

Quando questionado sobre seu processo criativo, Mike explica que não tem um único caminho, quando se trata do seu trabalho autoral, o caos é bom para se manter interessado. Em termos criativos, a falta de método permite que as ideias apareçam em qualquer momento do dia. “É caótico, mas é estimulante, porque você descobre que tem ideias. Ao mesmo tempo, precisa ser combinado com senso crítico, precisa ter consciência das falhas, de onde é preciso melhorar e crescer”. Já para o trabalho sob encomenda, em que a produtividade é fundamental, seu método já está automatizado. “A tecnologia tornou tudo mais fácil. Eu peguei o período mesozoico, em que se recebia o roteiro por fax e se enviava por correio. Hoje em dia, todo o meu trabalho de interior de páginas é digital. Eu adoro tecnologia, vou três vezes mais rápido e me mantém conectado. Na prancheta, tem isolamento, é solitário. Aqui, com a internet, eu converso com amigos, faço divulgações, compartilho notícias – fico conectado. Recebo o roteiro por e-mail e em geral eles confiam em mim, devido ao tempo que já trabalho com eles.”

Em geral, os quadrinistas brasileiros não têm apoio da família. Sabemos que muitos talentos são esquecidos por conta disso. Você tem dicas para lidar com essa pressão, para fazer algo que dê retorno financeiro?

Mike: Eu tive apoio da minha família, mas minha carreira foi uma série de lutas contra tudo à minha volta. Demorei anos para entrar no mercado americano. Lá mesmo, minha carreira teve altos e baixos e tive que me reinventar. Nos processos de tentar voltar ao topo tive reveses. Nos anos 90, eu estava trabalhando demais e com pouca qualidade, então ninguém queria mais me contratar. Resolvi trabalhar menos, com coisas que eu gostasse, mesmo ganhando pouco. Por exemplo, quase fui contratado para uma revista do X–Men, mas meu contato acabou sendo demitido. Outra vez, para a revista Witches, fiz dois primeiros números, e o diretor geral decidiu que o roteiro era ruim e engavetou o projeto. Eu sei das minhas falhas, mas confio que eu vou chegar lá. O conselho é confiar em si mesmo, porque vai ter sempre alguém contra. Se você mesmo não tiver essa confiança, pior ainda.

Como foi sua adaptação para a mesa da Wacom, com a diferença de tecnologia?

Mike: Minha adaptação durou um dia. Como eu usava um computador pouco potente, havia um atraso entre passar o traço e o desenho aparecer. Me adaptei com a caneta ao fixar no cursor e não na sua ponta. Hoje em dia, a Wacom faz canetas para todos os gostos, com molas e pontas diferentes. O importante é se conscientizar de que é outro instrumento. É como trabalhar com lápis, pincel ou pena, cada um traz resultados diferentes. Mesmo tendo um software com inúmeros pincéis, é mais facil fazer as pazes com a tentativa de imitar o trabalho com papel. Eu tento aproveitar as vantagens, como as linhas de velocidade pré-feitas, do Manga Studio por exemplo. Para mim, isso não desvaloriza o desenho, só proporciona mais tempo para trabalhar na expressão do personagem ou em outros detalhes. Faça as pazes e use as vantagens para aperfeiçoar seu trabalho.

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